Um passo de cada vez
Você sabe o que precisa fazer, mas não consegue começar. O dia passa, a tarefa continua ali e, junto com ela, vem a culpa. A procrastinação costuma ser vista como falta de força de vontade, mas muitas vezes ela tem mais a ver com ansiedade do que com preguiça.
Responder aquele e-mail, marcar a consulta, organizar a casa, começar o trabalho que vence na sexta. Quem convive com a ansiedade conhece bem a cena: a tarefa nem é tão difícil, mas só de pensar nela surge um desconforto. E, para fugir desse desconforto, a gente deixa para depois.
No meio de tantas demandas, como trabalho, filhos, casa e relacionamentos, é fácil acreditar que o problema é organização ou disciplina. Só que, na maior parte das vezes, adiar é uma forma de lidar com emoções difíceis.
Pesquisas em psicologia descrevem a procrastinação como uma tentativa de aliviar o mal-estar no curto prazo. Diante de uma tarefa que desperta tédio, medo ou insegurança, adiar traz um alívio imediato, e o custo fica para o “eu do futuro” (Sirois e Pychyl, 2013).
Na prática, isso aparece em pensamentos como:
Esses pensamentos aumentam a ansiedade em relação à tarefa. Adiar parece resolver, mas só por um tempo.
O problema é o que acontece depois do alívio. A tarefa continua lá, o prazo se aproxima e a lista de pendências cresce. Vem a culpa, a autocrítica (“por que eu não consigo?”) e mais ansiedade. Quanto mais ansiedade a tarefa desperta, maior a vontade de adiar de novo.
É um ciclo que se alimenta sozinho:
Por isso, cobrar-se mais raramente resolve. A cobrança costuma aumentar o desconforto, e o desconforto é justamente o que leva a adiar.
Entender a procrastinação como uma forma de regular emoções muda bastante a conversa. Em vez de perguntar “por que eu sou assim?”, a pergunta passa a ser “o que essa tarefa desperta em mim?”. Medo de errar, sensação de não dar conta, cansaço acumulado e perfeccionismo são alguns dos motivos mais comuns.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o trabalho com a procrastinação combina duas frentes: entender os pensamentos que tornam a tarefa ameaçadora e mudar, aos poucos, a forma de agir diante dela. Algumas ferramentas usadas nesse processo:
O objetivo não é virar uma pessoa que nunca adia nada, e sim diminuir o peso que as tarefas carregam e recuperar a sensação de que você consegue dar conta do que importa.
Escolha uma tarefa que você vem adiando e defina apenas o primeiro passo, algo que leve no máximo dez minutos. Não precisa terminar, só começar. Observe como você se sente antes e depois. Esse pequeno experimento já mostra muito sobre como o ciclo funciona na sua rotina.
Na terapia, você entende o que está por trás da vontade de adiar e aprende ferramentas práticas para retomar as tarefas aos poucos, sem culpa e com acompanhamento próximo.